Elis Regina Carvalho Costa
“A alma
é um céu! O coração uma lua!...
Você é uma estrela nesta passagem noturna...”
(Homenagem em um outdoor - centro SP)
Este resumo da vida da Elis eu mesmo fiz baseado no livro “Furacão Elis" da escritora Regina Echeverria e outros três livros dedicados a ela...
http://www.submarino.com.br/portal/BuscaAvancadaListLivros/? men Id=1060&dep=1&order=score&dir=desc&titulo=elis+regina&autor=&editora=&g=
Além da obra prima de uma escritora Aline Maria Kukolj (UFPR)
Ele já tinha sido escrito por mim há 12 anos, em 2000, logo quando cheguei em São Paulo...
Fui ver onde ela morava...
Os lugares onde frequentava,
Sua sepultura no Cemitério do Morumbi...
Enfim, tudo, tudo, que eu podia ver e pensar... aqui ela veio... aqui viveu... aqui ela falava assim...
...eu chegava na cidade escolhida por ela, São Paulo, que ela tanto amava e viveu por 18 anos... Então, fiquei ansioso demais e queria escrever meu próprio texto sobre ela e as coisas que ia descobrindo.
Ainda há pouco, no ano passado, usei ele com algumas modificações para um projeto na pós graduação e foi um sucesso no dia da apresentação. As pessoas e a professora se emocionaram, ficando saudosas. Gostaram bastante!
Agora, hoje, compartilho com vocês e espero que gostem,
Everton
Há exatamente trinta anos, no dia 19 de janeiro de 1982, Elis Regina Carvalho Costa, popularmente Elis Regina, deixava a vida da terra, deixava milhões de pessoas que a adoravam para nunca mais voltar, e para sempre se eternizar nos corações de cada brasileiro que viveu sua época e de cada um que ainda iria viver e saber dela!
Era uma terça-feira, 11:30 hs da manhã. Os rádios apressados, sem saber ao certo a dimensão do que acabava de acontecer. Indignados, noticiavam a todo o momento a morte, da até então, a melhor cantora de nossa musica popular brasileira.
Elis morreu sem ter noção ou parâmetros para avaliar o quanto era querida, estimada e amada.
Durante toda a história da menina gaúcha de Porto Alegre, podia-se verificar uma busca constante pelo perfeito, uma insegurança enorme, que mais tarde seria a principal responsável pela morte precoce da eterna rainha da MPB. Existem controversas, eu mesmo acreditei por muitos anos em morte encomendada. Elis incomodava o poder político do país e eles sabiam da sua força junto aos cidadães. Elis falava demais para uma epoca onde o silêncio se fazia necessário.
Elis nasceu em dezessete de março de 1945, no Hospital da Beneficência Portuguesa de Porto Alegre, na capital do Rio Grande do Sul. Primeira filha do casal Ercy e Romeu, a primogênita da família Carvolho encantava com seu rosto arredondado e sorriso sincero. Desde que nasceu , Elis era extrabica, tinha tudo que o dinheiro do pai aposentado e da mãe costureira poderiam comprar. Desde pequena sempre usara laçarotes enormes no cabelo, que mais tarde, no inicio da carreira, já no Rio de Janeiro, se tornaria sua marca registrada. O Pai queria colocar o nome de Elis porque teve no passado uma prima bonita com este nome, mas no cartório, o escrivão se recusou a registrar alegando que o nome "Elis" era para homem. O pai nervoso acatou a sugestão de uma senhora que no cartório também trabalhava e assim Elis Regina!
Ainda muito pequena e conduzida pela avó materna, Elis teve contato com o microfone. Em pouco tempo, na cidade se tornou conhecida por seu talento precoce e encantava a população.Assim, foi muito fácil, Elis era chamada pra representar cidades nas principais rádios gaúchas, ate o convite para gravar um LP.
"Poucas pessoas sabem quem realmente descobriu Elis. Foi um vendedor da gravadora Continental chamado Wilson Rodrigues Poso, que a ouviu cantando menina, aos quinze anos, em Porto Alegre. Ele sugeriu à Continental que a contratasse, e em 1962 saiu o disco dela. Levei Elis ao meu programa, fui o primeiro a tocar seu disco no rádio. Naquele dia eu disse: Menina, você vai ser a maior cantora do Brasil. Está gravado". ( O produtor Walter Silva declarando como a cantora foi descoberta).
Com o primeiro LP, Elis se mudou, levando a família, o pai desempregado, a mãe, Dona Erci, e o irmão caçula, Rogério Carvalho, para o Rio de Janeiro, onde no Beco das Garrafas, na noite carioca começaria a escalada do rápido e meteórico sucesso que alcançaria.
"Poucas pessoas sabem quem realmente descobriu Elis. Foi um vendedor da gravadora Continental chamado Wilson Rodrigues Poso, que a ouviu cantando menina, aos quinze anos, em Porto Alegre. Ele sugeriu à Continental que a contratasse, e em 1962 saiu o disco dela. Levei Elis ao meu programa, fui o primeiro a tocar seu disco no rádio. Naquele dia eu disse: Menina, você vai ser a maior cantora do Brasil. Está gravado". ( O produtor Walter Silva declarando como a cantora foi descoberta).
Com o primeiro LP, Elis se mudou, levando a família, o pai desempregado, a mãe, Dona Erci, e o irmão caçula, Rogério Carvalho, para o Rio de Janeiro, onde no Beco das Garrafas, na noite carioca começaria a escalada do rápido e meteórico sucesso que alcançaria.
Elis Regina Carvalho Costa. Para o poeta Vinícius de Moraes, simplesmente, "Pimentinha", o mundo já mais seria o mesmo depois da chegada daquela mulher de gênio forte e firme, de um pouco mais de um metro e sessenta de altura, olhos vesgos e uma voz fascinante, que paradoxalmente a mais famosa canção, “fascinaria” o mundo.
O Rio de Janeiro, por volta de 1964, vivia, como o restante do pais, o Golpe Militar, medo e tristeza. A alegria de Elis contagiava as multidões, e o povo se curvava a voz de uma figura estranha para os padrões da época, mas embalada pelo novo, pela esperança de dias melhores! "Choravam Marias e Clarisses", e ela sempre muito politizada, fazia tudo para não prestar e dar atenção aos governantes da "Nação da Ordem e Progresso", como ela dizia.
Em uma entrevista para a televisão, Caetano Veloso dizia:
“Eu achei muito talentosa, quando a vi pela televisão, levei um choque! Muito vulgar, mas a voz me deixou impressionado. Era uma coisa incrível, mas ela fazia gestos, aquela dança marcadinha. E, como eu era bossa-novista, seguidor do João Gilberto, aquela coisa cool e de bom gosto e cores mais discretas, Elis me pareceu cafona, mas cheia de talento, ela era hot para época que se amava o cool”.
Agressiva e desconfiada, a menina de então dezenove anos tirava de sua mala de poucas e cafonas roupas, a voz potente e perfeitamente técnica que o críticos extasiavam-se. Vinda do sul do pais, trazia também a garra e a determinação que se tornariam sua marca registrada.
“Jamais se curva diante de nada:” era uma fera controlada pelas notas musicais!”, diziam as revistas da época. Elis dizia:
"Sempre vou viver como camicase. É isso que me faz ficar de pé".
"Me tomam por quem? Um imbecil? Sou algo que se molda do jeitinho que se quer? Isso é o que todos queriam, na realidade. Mas não vão conseguir, porque quando descobrirem que estou verde já estarei amarela. Eu sou do contra. Sou a Elis Regina do Carvalho Costa que poucas pessoas vão morrer conhecendo"
"Entre a espada e a parede me atiro contra a espada!"
Elis era muito além do que se via na época em termos talento musical. A suavidade da bossa nova pedia espaço para a interpretação nua e crua da garota do Rio Grande do Sul. Seu estilo foi chegando, contrapondo-se a bossa nova e agradando multidões e a crítica nacional. Segundo texto do jornal do Rio de maio de 1966:
Chega na musica brasileira um novo estilo, inconfundível, único, o estilo Elis Regina, que vem se firmando junto ao sucesso da bossa nova, que no inicio ela dizia não gostar.
E não gostava mesmo, e torcia o nariz para tudo que se dizia a respeito dos bossas-novistas. Tinha aversão aos baianos, a Caetano, Gal, e principalmente Bethânia, essa, odiava e não escondia de ninguém!
No final de 1964, Elis arranjou um namorado. Solano Ribeiro tinha vinte e cinco anos, jovem e politizado, trabalhava para a TV Excelsior, em São Paulo. Foi através deste namoro que Elis conheceria a dupla produtora de maior sucesso da época, Luís Carlos Mielli e Ronaldo Bôscoli. Os dois trabalhavam com exclusividade para a Agência Midas, e produziam alguns poucos showzinhos para o Beco das Garrafas. Conheceram Elis em um sábado á noite, Ela estava de cara virada, não gostava da idéia de se submeter aos caprichos e horários de produtores, e então não teria porque agradar a dupla. O primeiro show de Elis foi um sucesso. Foi chamado de "Bottles" dirigido por Mielli e Bôscoli, que já não aguentava tamanha teimosia:
“Tudo que falávamos ela retrucava. Fazia questão de nunca se submeter a nada que ela não quisesse,sendo que o mais intrigante era que ela queria demonstrar isto. Eu falava para ela , Elis aquele cara pode te ajudar, trata bem o cara, e ela, quando apresentada, fazia questão de mostrar a agressividade, de não ser simpática. Um dia cheguei para ela e disse: - Onde quer chegar? Ela respondeu: - Onde eu quiser, a vida é minha!"Elis, descontente, foi tentar contatos em São Paulo, em pouco tempo, conquistara os centros acadêmicos das principais faculdades, que na época desempenhavam importante papel social e cultural no país. Desde então, no dia 31 de agosto de 1964, Elis se apresentava no Fino da Bossa, um espetáculo produzido por estes mesmos centro acadêmicos. Com Walter Silva, Elis ficaria uma temporada fazendo o Fino, e ganhava por noite, mas do que ganhava o mês todo no Beco das Garrafas.
Pelo mesmo Solano Ribeiro, o primeiro namorado, Elis foi convidada para participar do “I Festival de Música Popular Brasileira da TV Excelcior”. Iria defender duas músicas, a primeira “Por um amor maior” de Francis Hime e Ruy Guerra, a segunda “Arrastão” de Edu Lobo e Vinicius de Morais.
Com a primeira Elis foi desclassificada. Ficou possessa, e dizem que ligou tarde da noite para Solano e disse: "- Eu não participo mais! Solano sabia que não seria fácil convencer Elis a defender a segunda música, o Arrastão.
Existem controvérsias, Elis negava, Edu não falava do assunto, mas dizem que o Edu ligou para Elis e disse: "Você não pode fazer isto comigo. Minha música tem que participar."
Elis sabia que existia um complô para que Simonal vencesse, o festival. Ele era o preferido da Excelsior, e era mais conveniente que ele ganhasse.
Como era camicasi, Elis defendeu a música de Edu Lobo e e Vinicios de Moraes, em meio a um balé de seus braços a música ”Arrastão” fez um a um na platéia levantar da cadeira indignados com aquilo que viam. Solano, na platéia, não acreditavanaquilo tudo e dizia para Edu: "-Ganhamos!" O povo aplaudiu em pé, Elis Regina vencia o “I Festival de Música Popular da Excelsior”.
"Olha o Arrastão entrando no mar sem fim
É, meu irmão, me traz lemanjá pra mim..."
Local: Guarujá, São Paulo
Data: Abril 1965
Classificação:
1º Lugar: Arrastão (Edu Lobo e Vinicius de Moraes) - Intérprete: Elis Regina
2º Lugar: Valsa do Amor Que Não Vem (B Powell e V de Moraes) – Intérprete Elizete Cardoso
Ronaldo Bôscoli dizia: “ Era fascinante lembrar: peruca preta, o vestido de tubinho preto, braços abertos feito o Cristo Redentor, a voz solta feito purpurina, gana, vontade de vencer. Choro e riso em um rosto consagrado”.
Prêmios é o que não faltaram na carreira de Elis. Logo depois de Arrastão, junto com o amigo Jair Rodrigues, montavam um espetáculo no Teatro Paramount, que rendeu o premio “Roquete Pinto”, tradicional, oferecido para os melhores do ano.
O maior salário da TV Record era de 800 mil cruzeiros. Elis foi contratada para ganhar seis milhões. Era fabuloso, saia em todas as capas de revista. Em 1966, a cantora mais bem paga do país.
Ela dizia: - “Eu sempre quis ser capa de revista, sabia bicho?"
Na verdade Elis teve o papel de representar para uma época, sofrida e dominada pelos anos de chumbo. Ela se sentia meio na responsabilidade de mostrar o novo, um aglomerado de tudo ao mesmo empo agora, que todos queriam.
Segundo depoimento de Gilberto Gil:
"Para mim, Elis era o símbolo daquilo tudo, daquela novidade toda. Inclusive ela legitimava muito a minha ambição. Achei que tinha chegado o tempo da gente. Ela era diferente de todas as cantoras, a vestuária toda, as perucas, sandálias, tudo! A voz, o modo de cantar, o repertório. Eu fiquei apaixonado por ela e em segredo a admirava, mas ela nunca soube disso.”
O Jornal da Tarde em sua edição de 7 de dezembro de 1967, em matéria não assinada trazia uma “bomba”. Elis Regina anunciava casamento com o produtor de música Ronaldo Bôscoli. Dizia: “Um compositor levou nossa Elis”.
A vida de Elis mudaria e muito. Nunca mais seria a mesma descontraída e inocente. No casamento com Bôscoli, durante todo o tempo, Elis era sempre coluna social de escândalos. Eram inseparáveis, mas não se suportavam, o gênio não batia, dizia Mieli.
“Era uma relação perigosamente deliciosa. Voava tudo pelos ares e, de repente, estávamos nos agarrando de paixão. Elis era muito neurótica”, dizia Boscoli, logo depois da separação.
Logo depois da morte de Elis, Denner, o costureiro e amigo inseparável dela dizia: "- Elis amou tanto Ronaldo, que por ele largaria tudo." Não conseguiu segurar a barra, pois Ronaldo deixava ela doida de ódio. Acredito que foi o único amor de Elis."
Em 1972 se separaram definitivamente, oficialmente. Na história dela, 27 anos, sonhos acabados, um filho, João Marcelo, e muito ódio do ex-marido.
“Seu pingue-pongue de ódio e paixão enlouquecia quem buscava nela alguma coerência”. Dizia sua amiga e escritora Regina Echeverria.
Após o casamento, Elis tinha muita coisa para correr atrás...
O início dos anos 70 marca em Elis uma mudança de comportamento notável, uma visão mais politizada, uma inquietação e uma busca por maior prestígio para sua carreira, ansiava fazer os circuitos de shows mais politizados como o circuito universitário. Em 1974 gravou com Tom Jobim em comemoração aos 10 anos da gravadora Philips, Tom era o criador musical da Bossa Nova e da música de raízes cultas, um dos poucos músicos que Elis admirava, o álbum Elis e Tom foi gravado em Los Angeles e é considerado um dos melhores discos da discografia brasileira.
Foi nesta mesma época que fez seu primeiro show de teatro, no Teatro Maria Della Costa, foi ao ar com um especial da Tv Bandeirantes e um show no teatro Bandeirantes com Tom e orquestra além de uma apresentação na Globo para em seguida iniciar o circuito niversitário. Inicia seu romance com César Camargo Mariano que lhe presenteia com seus melhores rranjos, em seus nove anos de casamento e carreira compartilhados foi sem dúvida o parceiro musical que melhor a compreendeu e representou isso em seus arranjos com muita beleza e sensibilidade.
O Show " ELIS" No Teatro Maria Della Costa...
Durante este período , em 1971, Elis que sempre lutou pela dignidade e liberdade do ser humano, é obrigada – assim como foi 1969 – a se apresentar nas cerimônias de comemoração ao sesquicentenário da Independência, anos depois ela declarou sobre o ocorrido: “Eu não fui, me foram. Eu andava morrendo de medo. Me disseram ou vai ou a gente não sabe o que pode te 4acontecer... Eu tinha exemplos ao meu redor”
Foi entre o Fino da Bossa e Falso Brilhante, o que podemos chamar de segunda fase de sua carreira, que Elis fez estrondoso sucesso e consolidou sua carreira, ficou famosa na Europa, representou o Brasil no festival de Midem na França, cantou no Olympia de Paris e foi também nesta época que foi considerada uma cantora fria e técnica demais, que brigou com a tropicália, Roberto Carlos e a Jovem Guarda, e, contraditória, bateu todos os recordes de público no Teatro da Praia, no show Elis e Miéle.
Pegando "carona" no sucesso que fazia, Elis queria mais. Queria algo diferente e grandioso, que ficasse eternizado na mente e no coração das pessoas. Apaixonada por César Camargo Mariano e morando na Serra da Cantareira onde sempre sonhou em morar, Elis queria dar mais dela para seus fãs. Como se der mais não bastasse somente ela existir e encantar com sua voz aveludada e perfeitamente técnica.
A crítica foi unanime em 1975. Os jornais noticiavam. Digno de um espetáculo da Broadway, ela leva ao Teatro Bandeirantes na Avenida Brigadeiro Luis Antonio, em São Paulo um show marcado por interpretações, música e fantasias.
O espetáculo Falso Brilhante marca o início da terceira e última fase de sua carreira, um espetáculo muito cênico, dirigido por Miriam Muniz e com cenário de Naum Alves de Souza. Nesse show Elis canta e interpreta de tango a samba e ária de ópera com roteiro, arranjos e figurinos impecáveis que contavam a história de uma cantora brasileira e encerrava com ela de porta-bandeira cantando o Mestre sala dos mares (João Bosco/ Aldir Blanc). Elis se desenvolve no palco com grande desenvoltura e volta a ter a aproximação calorosa com seu público. O espetáculo permaneceu em cartaz no Teatro Bandeirantes, SP, por um ano e quatro meses, um sucesso estrondoso.
A partir de então cada novo trabalho significava um novo desafio. No álbum Essa mulher

(1979) , em seu repertório estavam sambas de Cartola e Baden Powell e já nele a idéia embrionária de um show que “contaria a trajetória de nosso povo”, o Saudade do Brasil .
Em seguida, com data marcada para março de 1980 estreava o show mais polemico da vida da cantora: Saudade do Brasil Elis declarou:

" O Brasil é feito de pessoas feias, mal-vestidas e mal-alimentadas. Se o cara vai ao show e se assusta é porque está se vendo no espelho. Este é um anti-show por excelência. Os bailarinos e os músicos não são profissionais. Todos são filhos de operários do ABC, gente que nunca teve a oportunidade de subir ao palco”. Um show ousado e crítico.
Trem Azul, seu último show antes de morrer, demonstra bastante ironia, novas críticas a
Caetano Veloso e uma postura musical bastante parecida com a do Rock, com agudos mais fortes, prolongados, experimentações vocais, perfeição técnica aliada a emoção.
Elis Regina iniciou sua carreira muito cedo e também cedo teve que enfrentar as
dificuldades de se engajar na vida cultural brasileira, determinada a não calar sua voz e construir seu próprio caminho. Nos idos anos 50, os “anos dourados”, a “boa moça” era aquela que tinha a vocação para a maternidade e a vida doméstica que seriam marcas de feminilidade, enquanto a iniciativa, a participação no mercado de trabalho, a força e o espírito de aventura definiriam a masculinidade (Bassanezzi, 1997). Nos anos 60 e 70 a repressão e a ditadura militar foram a grande cicatriz e o movimento de mulheres em oposição ao Regime deu origem ao início do movimento feminista. “O pessoal é político”, afirmava uma das correntes, e dentro deste pensamento, 
Elis Regina foi uma mulher crítica, inconformada com a condição feminina e engajada demonstro-se uma transgressora. Mostrou suas rupturas e seu pensamento crítico, social e político em sua obra, bem como na maneira franca e direta de falar sobre sexo, repressão, liberdade, política, filosofia ou sobre qualquer coisa.
A menina estrábica e tímida deu lugar à mulher com força e coragem de contar através da música os desejos de ruptura de toda uma geração. Assim cantou bossa nova com uma voz potente em Ponteio, contestou a condição miserável do brasileiro em Transversal do tempo, inovou e surpreendeu em Falso Brilhante, cantou Essa mulher, essa senhora...a condição feminina, foi a voz da anistia em O bêbado e o equilibrista, brigou, ironizou, fez o anti-show em Saudade do Brasil, cantou o amor, o ódio, o futebol, o carnaval, o preconceito e a mulher, assim, tão doce pimentinha. Rompeu com os costumes da época com seus cortes de cabelo, seu jeito agressivo e nada “feminino”, sua intensidade em tudo que fazia e até no sorriso solto e na tristeza repentina.
No balé genial de seus braços, nesse tão “anti-estético” e incômodo colocar-se no palco e na vida, Elis girava seus braços como hélices que cortaram tanto e a tantos e ainda nos “corta”, assustando quando de sopetão percebe-se um suspiro a mais no seu cantar, no olhar... então esbarramos de novo e a toda hora nesse seu “espelho casual, com tanta sombra e tanta luz”
http://www.youtube.com/watch?v=KvB7vyBrfdE
Essa Mulher, Grandes Nomes, 1980.
http://www.youtube.com/watch?v=KvB7vyBrfdE
Essa Mulher, Grandes Nomes, 1980.
Segundo Marta Góes (Jornal O Estado de São Paulo 27/01/1990), “o que torna fascinantes os ídolos é justamente o fato de, além de talentos excepcionais, eles serem figuras humanas, em tudo o que isso implica de grande e de mesquinho. O público quer conhecê-los e manifestar sua paixão, e é assim, afinal, que eles se tornam ídolos.” Assim, o Furacão Elis foi conhecido como a mulher devastadora, baixinha e estrábica que não dizia meias-verdades. Assim crescia o mito em torno de uma das maiores intérpretes da Música Popular Brasileira. E foi ela uma das principais intérpretes que, com muitas de suas músicas, marcou a história do Brasil e as tendências no cenário musical
“Agora o braço não é mais o braço erguido num grito de gol.
Agora o braço é uma linha, um traço, um rastro espelhado e brilhante. E todas as figuras são assim: desenhos de luz, agrupamentos de pontos, de partículas, um quadro de impulsos, um processamento de sinais. E assim – dizem – recontam a vida.
Agora retiram de mim a cobertura da carne, escorrem todo o sangue, afinam os ossos em fios luminosos e aí estou, pelo salão, pelas casas, pelas cidades, parecida comigo. Um rascunho. Um forma nebulosa, feita de luz e sombra. Como uma estrela.
Agora eu sou uma estrela!”
Agora o braço é uma linha, um traço, um rastro espelhado e brilhante. E todas as figuras são assim: desenhos de luz, agrupamentos de pontos, de partículas, um quadro de impulsos, um processamento de sinais. E assim – dizem – recontam a vida.
Agora retiram de mim a cobertura da carne, escorrem todo o sangue, afinam os ossos em fios luminosos e aí estou, pelo salão, pelas casas, pelas cidades, parecida comigo. Um rascunho. Um forma nebulosa, feita de luz e sombra. Como uma estrela.
Agora eu sou uma estrela!”
Elis Regina




























